Um texto atabalhoado

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Agosto que passou perdi uma grande amiga.

Depois de uma pequena carreira no mundo das multinacionais, tirou um ano (que rapidamente passaram a dois) sabático para viajar. Depois de regressar, já nada seria como dantes porque se sentia a “não viver” quando tinha de se fechar num escritório. Tirou curso de bombeira, fotografia (queria encontrar uma arte para viver a viajar). Lembro-me de me ter enviado uma mensagem a dizer “vou fazer curso de jardinagem. Posso ser jardineira em qualquer lado e não tenho de trabalhar num escritório”. Passado um ano, teve mais uma hipótese de mais um sabático e agarrou a oportunidade. Visitou quase todos os continentes, viveu com famílias em países como Cambodia ou Peru e um filho da puta de um mosquito tirou-lhe a vida no Bali! No Bali.

Era a pessoa que recorria para tudo. Tinha um sentido de humor único e tinha a enorme capacidade de se rir dela própria. Gostava de quebrar regras. De perguntar “porquê” e de nunca se calar se não concordava (vencia pelo cansaço). Éramos amigas desde os 10 anos. Era quem eu queria que fosse guardiã legal dos míudos.

Todos os dias me lembro dela.

Não sou praticante de religião alguma nem acredito na vida depois da morte (que inveja que sinto dos que, de uma ou outra forma, têm um certo consolo no depois da morte), de modo que, não consigo reconciliar uma morte. A Lena foi talvez a primeira morte de alguém que me era muito chegada e veio baralhar isto tudo.

Por um lado, ficou claro que não há segundas oportunidades. É o que é e o que faz da vida (que é tão, mas tão frágil). E se isto é um cliché que todos apregoam, para mim é latente e fiquei sem paciência para merdas. FIquei extremamente cínica. Por outro, a forma estúpida, mesmo muito estúpida como vivemos. 20 anos na escola (não para aprender mas para martelar conteúdos, e cada vez mais para assimilar o que “eles” querem que assimilemos) para podermos ter um bom trabalho, trabalhar, trabalhar, trabalhar os 35 anos seguintes (se “tiveres a sorte de teres trabalho, que isto como está…”) muitas vezes em empresas sem alma, que apenas olham ao sinal do dólar e das vendas e de sei la mais o quê para depois gozar a reforma (que vem cada vez mais tarde). Nos intervalos, ter filhos, comprar um apartamento, carro, 2º carro e 2ª casa (medidas do sucesso).

No meio disto tudo, queria ter meios suficientes para que os meus filhos vivessem a vida sem limitações. Sem terem de trabalhar (só por gosto, se quiserem ser bibliotecários no Chile ou aprender a fazer massa em Itália, medico, músico… o que quiserem). É sonho e egoísta, assumo-o.

Dou comigo a pensar o quão estúpidos e irracionais são banqueiros e grandes magnatas. Têm dinheiro e influencia que não dá para usar nem que vivessem 30 vidas. Para quê continuar na ambição de querer mais, de explorar quem já está esprimido ao máximo, se não ganham mais com isso? [eu sei para quê, não sou táo inocente, mas racionalmente e do ponto de vista macro não deixa de ser estúpido].

A morte da Lena trouxe também ao de cima a culpa em ser mãe. Olho para os miudos e embora um sorriso deles sare qualquer dor, também é verdade que vão morrer. Mais tarde, mais cedo, com sofrimento ou de repente, vai acontecer. E eu não tenho qualquer poder sobre isso. Não posso ajudar, nem evitar.

Parto em casa: tão antigo mas tão moderno!

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O mais novo membro da família chegou à 1:25 de 4 de abril de 2015.  Nasceu em casa, rodeado de atenção e carinho, da maneira mais respeitosa possível: foi direto pro colo da mãe e, enquanto essa aguardava o ‘nascimento da placenta’ ficou no colo do pai. Quando já estava mais ambientado ao “novo mundo”, as profissionais do parto realizaram alguns procedimentos simples para saber se estava tudo bem com o gurizinho. Para quem gosta de números: ao nascer, ele pesava 3310 gramas e media 50,5 cm. 

Premonições

Chamando o irmãozinho“Como estão as contrações?” – perguntou-me a doula em uma mensagem via whatsapp naquela manhã de sexta-feira santa. Achei a pergunta propícia, mas eu ainda não tinha dito a ela que estava tendo contrações tão fortes. Na véspera, organizei tudo para o momento em que A. nasceria mesmo sem saber que estava tão próximo. Enquanto isso, U. brincava de “chamar o irmãozinho” o dia todo…. Leia o resto deste post

Questões de Raça ou paranóias de Mãe

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Para início de conversa deixo claro que a minha falta de sensibilidade para falar de questões raciais é enorme. Não sei se por intrinsecamente considerar que a discussão é inútil (como diria um chefe meu “como é que se ensina senso comum a um homem de 40 anos?”) ou se é pura ignorância minha.

As discussões em volta das cores da pele (que sempre desvalorizei, da mesma forma como desvalorizo a questão dos gays/hetero – desvalorizo no sentido de não ter paciência de discutir com pessoas porque acho tudo tão preto no branco, tão transparente que não entendo como é que alguém se considera superior ou no direito de se intrometer com quem é que o vizinho mete na cama) entraram na minha vida quando me mudei para Singapura.

Isto porque, quando engravidei fiquei estupefacta com alguns comentários do género “o teu filho vai ser tão bonito, com o nariz fininho” ou com a “pele de neve”. Eu ficava literalmente sem palavras quando os naturais da Ásia faziam este tipo de apologia à beleza branca. Isto, juntamente com o facto de grandes marcas internacionais que com uma enorme hipocrisia fazem o elogio ao “love your body” mas por outro ajuda mulheres a tornarem-se mais brancas ou notícias de mulheres coreanas a fazerem plásticas para ficarem com a cabeça mais redonda. Mas atribuí estes comportamentos a “pessoal em todo o lado está descontente… na europa tentam ficar morenas, aqui tentam ficar brancas”.

A coisa tornou-se mais gritante quando o Gil nasceu. O nosso filho é misto, porque eu sou branca (ou causasiana ou como é que nos chamam) e o pai é chinês (ou asiático). Por isso, desde que nasceu tem sido alvo de atenções: “o chinês com mãe branca”. A situação é mais complicada para o pai. Ouvia muito frequentemente comentários do género “é teu filho? wow. A mae de onde é?”.

Entretanto mudámo-nos para Portugal onde, pensei eu, o Gil passaria, na questão racial, mais despercebido. Qual não é o meu espanto que passou a ser “o branco, de filho chinês”. E eu passei a ouvir comentários “é tão giro, nem diria que é chines”, ou “é tão giro, apesar de”. Comentários que vem da família, de estranhos, da escolinha onde ele está. O irmão, que entretanto nasceu, ouvimos “olha, é chinês mas é bonito”.

E elas não matam mas moem. E se por um lado a paciência tem limites por outro o Gil vai começar a perceber o que se passa, ou pelo menos a ter perguntas em relação a este fenómenos. Cada vez mais me apetece ladrar a quem faz comentários desta natureza – mas por norma quem o faz, nem se apercebe que é racista, não estou perante a situação de “eu sou melhor que tu” mas, ainda pior que é passar racismo por elogio.

Como mãe nao sei até que ponto deveria “deixar passar”, explicar aos miudos que aquelas pessoas são parvas e seguir em frente; por outro, nao sei se este tipo de comentário os vai magoar.

Gostava de lançar o debate:

– será que o melhor e ignorar, explicando aos miúdos que aquelas pessoas estão erradas em ser condescendentes?

– como passar a mensagem a pessoas completamente alheadas de que o que fazem é efectivamente racismo?

A de atencão, abraço, amor…

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Desde que A. nasceu, U o abraça, dá beijinhos e fica feliz em colocar o irmão mais novo no colo. Mas abria um berreiro e recusava-se a trocar as fraldas, ir para a escola ou tomar banho. O guri de dois anos e meio demonstrava ter braços e pernas fortes para resistir a qualquer esforço de pai e mãe para aquilo que ele não queria fazer.

E eu, como mãe, não sabia como tratá-lo. Não conseguia entender porque a primeira coisa que me vinha a mente era usar a força (ou até a violência, ainda que não o fizesse) para tentar que ele colaborasse com sua própria higiene ou prazer, já que sempre amou ir para a escolinha.

Gritei por socorro no whatsapp da P., amiga virtual e vizinha, mãe de três meninos. E ela me sugeriu algo que, embora já tenha lido a respeito para lidar com a fase do “terrible 2″, não havia me passado pela cabeça utilizar com o filho mais velho.

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Parto doméstico é para as fracas!

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Agora que estou no finalzinho da segunda gestação e tudo está preparado para um parto doméstico, cheguei a conclusão de que esse tipo de parto é para as fracas!

Na primeira gestação, tive a experiência de um trabalho de parto em casa que acabou em uma cesariana. Se eu comparo a sensação de prazer e alegria que o trabalho de parto em casa me proporcionou e a dor e quase depressão pós-parto que essa cirurgia abdominal causou, penso que fui muito mais forte para aguentar a cesárea do que o trabalho de parto caseiro.

Comparei várias sensações e dores prováveis em um parto doméstico natural e em um parto hospitalar no Brasil, seja ele cesárea ou normal: as mulheres fortes são aquelas que se submetem ao que geralmente é praticado na maioria dos hospitais, sejam eles privados ou públicos.

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Hospital “Amigo dos Bebés”

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O hospital público que serve a minha região é considerado “Amigo dos Bebés”. Descobri quando comecei a fazer os CTGs por volta das 38 semanas.

Confesso que fiquei surpreendida. Afinal, não deveriam todos os hospitais ser amigos dos bebés (e das mães dos bebés e dos doentes em geral)?

Depois descobri o que significava ser “Amigo dos Bebés”. Entre outras coisas, implica que o hospital se comprome a deixar as mães e bebés permaneçam juntos 24 horas por dia (ou seja, não existem berçários), a ajudarem as mães a iniciarem o aleitamento materno na primeira meia hora após o nascimento e, quanto a mim o mais importante, a mostrar às mães como amamentar e manter a lactação e a não dar ao recém-nascido nenhum outro alimento ou líquido além do leite materno, a não ser que seja segundo indicação médica.

Gostei, muito embora me perguntasse como é que, na prática, isto seria atingido.

Quando entrei em trabalho de parto, dirigi-me ao dito hospital onde me perguntaram qual o meu plano de parto, ao que respondi “natural”. A partir daí, fui reencaminhada para uma sala, com cama de partos e casa-de-banho equipada com duche e bola de pilates e onde fui deixada sozinha com o marido. A enfermeira aparecia a cada (acho eu) 45 minutos para vigiar o batimento cardíaco do bebé. Quando perguntei pelo famoso “toque”, a enfermeira respondeu-me que o toque era de evitar. Que o corpo daria sinais quando fosse altura de fazer força.

Pois bem, o André nasceu, foi imediatamente colocado em contacto com o meu corpo (e só depois levou umas palmadas porque foi um pouquinho preguiçoso) e foi posto a mamar logo depois. Depois foi limpo (não lavado). E este processo foi todo feito sem que houvesse pressas. Estivemos lá bem à vontade 3 horas antes de me levarem para o quarto. Tempo dado à mãe, ao bebe e ao pai para se ambientarem, entre conselhos e processos a seguir.

Quanto à amamentação, tive uma enfermeira a falar comigo e avaliar qual a succao do bebe e porque ambos tivemos algumas dificuldades vinha a todas as mamadas conferir se a situação estava a melhorar, quão confortável eu estava na amamentação e se continuava a precisar de ajuda. Este acompanhamento continuou durante todo o tempo que estive no hospital.

Um episódio interessante, uma mãe de primeira viagem, na primeira noite pediu que dessem leite artificial ao bebe porque o “bebe não parava de chorar”, “porque as mamas estavam doridas” e ela nao aguentava e não sei mais o quê. Resposta da enfermeira: que lamentava mas que podia fazer “esse tipo de disparates” fora do hospital. Que era difícil mas que, pelo que ela podia ver (porque fez o teste para ver os níveis de açucar) o bebe estava a receber o leite necessário e que, por isso não havia qualquer tipo de razão para passar para o leite artificial. E, verdade seja dita, que ainda lhe deu sermão, que o bebe provavelmente teria cólicas e tendo cólicas com o leite materno, como é que achava que o bebe iria digerir leite artificial e como é que ela iria gerir o choro a criança quando as cólicas decorrentes o leite artificial começassem a aparecer.

Quase no final da primeira semana de vida do André e nada de artificial foi introduzido. Se comparar com o primeiro filho, por esta altura já tinha todos os apetechos para alimentação à fórmula. Eu já tinha ouvido “então experimenta-se a formula para que possa descansar, pode entao comecar a amamentação quando o leite subir” (enfermeira no hospital); “tem a certeza que quer amamentar? Com os problemas que tem tido talvez seja mais fácil começar com leite artificial” (medico obstreta aquande de me ter diagnosticado mastite; “porque não compras leite artifical? O leite da família nunca foi forte, tanto eu como a tia tivemos de ir para a formula e nao fez mal nenhum. Vê lá se não és saudável?” (mãe, quando eu contava das dificuldades em amamentar. E o Gil foi amamentado até aos 6 meses mas não em exclusividade.

Ligue 180 Internacional

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Eis uma informação muito importante para as mulheres brasileiras que moram fora do país.
Não são poucos os casos de violência doméstica e de exploração sexual no exterior.
Se você estiver passando por isso (ou conhecer alguém que esteja), não hesite em pedir ajuda!
Infelizmente o medo de denunciar ainda é grande mas canais como o Ligue 180 podem mudar essa realidade.
Para mais informações, acessem a página SPMulheres. Divulguem para quem acharem necessário.

“O Ligue 180 Internacional é um serviço totalmente gratuito, promovido pelo Governo Federal, por intermédio da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que oferece informação, orientação e assistência à mulher brasileira vítima de violência doméstica (física e/ou psicológica) e de exploração sexual no exterior. O Ligue 180 está ativo 24 horas, e a ligação pode ser feita de qualquer telefone de Portugal, Espanha e Itália.

A ligação para o Ligue 180 Internacional será direcionada para a central de atendimento às mulheres da SPM em Brasília e encaminhada para a Rede Consular brasileira, serviços de assistência no exterior ou para a Polícia Federal, de acordo com o teor da solicitação recebida. Os Consulados poderão contactar as vítimas para prestar-lhes assistência ou, caso solicitado, acionar as autoridades locais. O objetivo da iniciativa é ampliar o apoio e assistência a vítimas brasileiras de violência doméstica, exploração laboral e tráfico de pessoas no exterior.

Na Itália, as brasileiras devem ligar para 800 172 211 (Embratel), selecionar a opção 3 e solicitar à atendente que conecte com o número 61-3799.0180.”

LIGUE 180