Caiu a ficha! 27 Maio 2008
Posted by miceberg in Carreira, mundo, mundo cão.trackback
Reunião marcada com um cliente de dimensão Europeia. Logo aí, primeiro problema: conhecendo a casa, reunião implica apresentação recorrendo ao meu amigo power point, o que, por sua vez implica ter de falar em público. Já na semana anterior o nervoso miudinho se tinha apoderado de mim com a procaria da apresentação.
Primeira decisão a tomar: levar ou não levar fato? Por um lado, a reunião era na Alemanha, normalmente bem mais formais que os Laranjinhas, vulgo Holandeses e (parte prática) normalmente está lá mais frio. Quase, quase, quase que estive para vender a alma ao Diabo e ir com “o vestido preto”* do mundo empresarial, ou seja. No último momento, resolvi irrigar o cérebro, bater o pé o decidi ir mais arranjadinha mas normal. Afinal é parte da minha essência não usar fato nem sapatos-de-matar-barata-ao-canto-da-sala. Contrataram-me assim e assim me terão.
Chegada ao lugar, humm, única mulher, única pessoa abaixo da faixa dos 30, única pessoa abaixo dos 40, a única abaixo dos 20.
(just kidding J)
O francês – digam o que quiserem, para mim todos têm aspecto de Sarkozy – e porque era o big big biiig boss – lá começou com aquelas apresentações que, por norma, diria chatas, mas não! De uma coerência extremamente interessante a explicar a estratégia da empresa e como estava relacionada com a postura perante a empresa para a qual trabalho, justificando com as decisões que tinham tomado ao longo do tempo. Bem porreiro!
No entanto, há algo que me irrita, é pá irrita-me: a pronúncia dos franceses quando falam inglês! Liberté, Egalité, Fraternité, muito bem, mas na língua materna. Quando o homem me começou a (se faz favor, ler com acentuação à portuguesa, antes do acordo ortográfico) com os “purcásê” e “mánágemant”, as “estrrratêgí”e as “órrdérrs”… Irrita-me! Algo que vai para além do racional.
O alemão, um cinquentão porreiro, de argola na orelha, que o cargo de contry director lhe da acesso a um Mazarati. Não teço comentários.
Enfim a entrevista correu bem, os objectivos foram cumpridos e porque é que este post tem a ver com o Mulheridades?
Tudo!
Primeiro, as pressões sociais (impostas e/ou concedidas) no que a aparência pode ter na vida profissional – a minha opinião é que influencia e muito, a diferença está em como se cede ou não.
Segundo, o facto de irritar por razão nenhuma. “Irrita. Porquê? Porque sim” – eu acho que esta expressão é algo exclusivo no universo feminino.
Terceiro e porque o meu cérebro não consegue ficar conectado com a conversa quando é desinteressante (arte que desenvolvi ao longo do tempo, afinal estudei Economia, imaginem a quantidade de conversas chatas que não tive), durante o almoço estava chatíssima e perante a dominância masculina comecei a pensar “director de compras – gajo, director da Alemanha – gajo, director BENELUX – gajo, director geral – gajo… Deixa ver na minha empresa.. olha, no meu departamento existem 5 managers, nenhuma mulher; em vendas, há uma – em pelo menos aí uns 10 – marketing há 3 (nada mau), RH aquilo é dominado por mulheres, ups… chefe, gajo”. Ou seja, a dura realidade dos números: ainda não é na nossa geração que chegaremos à igualidade no que diz respeito à cargos de decisão.
Muito trabalhinho pela frente é o que é!
PS – a apresentação correu às mil maravilhas. Começo a aperceber-me que é com grupos superiores a 10 que panico (do verbo panicar J). E a próxima é já na semana que vem.
*para os brasucas (é perjorativa chamar de brasucas? Eu acho um termo carinhoso… mas caso o seja avisem) que lêem, a frase é atribuída a uma grande comediante da revista portuguesa que dizia que “com um vestido preto nunca me comprometo”, isto é, estava bem para qualquer ocasião.
Tudo a ver com mulheridades sim! O quanto a imagem influencia na carreira e o quanto você está disposta a aparecer, desaparecendo nos outfits sem graça e padronizados do mundo corportativo? Fez bem em seguir o seu estilo,adaptando-se às condições e limitações do ambiente.
Sem brincadeira nenhuma, é irritante!!!
O que mais me chamou atenção no seu texto (além da maneira leve e engraçada que vc escreve) é o fato de vc ter sido a única mulher na reunião! Em que ano vivemos?
Não me lembro agora o nome do país, sei que é um nórdico (acho a Noruega)… mas eles têm uma lei de cotas para que mulheres cheguem a posições de liderança. E os homens de lá estão reclamando e dizendo que as mulheres não têm a experiência deles (e como teriam, se eles nunca deixaram elas ocuparem estes cargos?). E isso é válido tb pro país dos laranjinhas em que vivemos… e pra muitos outros países, claro.
Com certeza muito mulheridades o texto e uma delícia de ler tb. Esses padrões do mundo corporativo, irrita deveras, parece até TPM. Ainda vivemos em um mundo muito careta, e qto a questão de mulheres em cargos de chefia, nossa geração vive a transição dessa cultura. Ainda ganhamos menos, ainda somos subjugadas, ainda sofremos assédio sexual e muito mais ainda moral. Mas, o importante é descobrir o seu lugar no mundo e não se vender, que me parece que foi sua opção. Parabéns! Como a bailanesa disse: ” seguir o seu estilo,adaptando-se às condições e limitações do ambiente” . A “brasuca” aqui não achou o termo perjorativo e concorda com a ótima escolha do pretinho básico, rs
bjs
Não concordo muito com quotas… penso que as pessoas devem lá chegar independentemente do sexo. O que me irrita é que pessoas muito capazes sejam preteridas por serem mulheres. As quotas podem dar azo a que se criem posições de fachada para que as empresas/governos/partidos digam: ok, temos 33% de mulheres em cargos de direcção. E posso dar exemplos: Talent Manager (o que significa ninguém sabe, mas é uma posição recém criada aqui na empresa – para uma mulher); em governos “Ministério da família e da igualdade – também por uma mulher.
Por um lado também sou contrária às cotas pelo mesmo motivo que você mas por outro lado, infelizmente parece não haver outro meio. Naquela matéria que li das cotas nos países nórdicos, as entrevistadas reclamavam que nunca eram convidadas para as partidas de golfe, que só iam homens da ‘network’ dos acionistas das empresas e eram nesses momentos informais em que se decidem quem deve ocupar o cargo… e muitas vezes entrava um incompetente na presidência, embora amigo dos donos. Aqui na Holanda, li em algum jornal, as empresas partem do princípio que mulher um dia quem sabe talvez vai ficar grávida, vai querer trabalhar menos horas por semana e por isso, por mais que se anuncie uma vaga para homens e mulheres, já se sabe que o candidato ideal é o homem… Como resolver então a falta delas em cargos top?
Mas se for para impor quotas, se somos a maioria das licenciadas, se representamos cerca de 45% da população activa, porque não exigir os 50%?
Eu vejo as quotas como a atitude paternalista do “tomem lá os 30% para vos calar, mas continuem a apresentar o jantar às horas certas”.
Penso que começa, primeiro, por mudarmos nós a nossa maneira de estar na vida, Se quando uma mulher engravida, passa a part-time e é o homem que investe carreira, do ponto de vista da empresa, eu percebo a escolha de um homem para um cargo de gestão. Agora, aonde é que fica a responsabilidade enquanto homem e enquanto pai?
continuo concordando com vc… cabe realmente às mulheres exigir que o homem também trabalhe menos para cuidar das crianças. Tirando os nove meses dentro da barriga e o leite materno, não existe nenhuma outra tarefa que o homem não possa fazer. Direitos (e deveres) iguais, também na educação dos filhos!
Por mim, a mudança começa a fazer-se no berço: não educar os rapazes como deficientes físicos que não podem ter qualquer tipo de responsabilidade doméstica (lamento mas grande parte dos homens – particularmente Latinos – andam à procura de uma segunda Mãe) e chegam aos 30 anos e são uns bebezões grandes.
Segundo, passa por, enquanto Mulheres, exigirmos respeito. A história do “ele até me ajuda” assume-se, à priori, que a responsabilidade de manter a casa é nossa e ele “até é um porreiro” porque “ajuda”… não!
E outra coisa a do “se não fazes, digo ao teu Pai” muito típico das Mães Latinas, como elas não fossem capazes de tomar decisões e precisem da figura paterna para impor respeito ou disciplina…
São os 3 comportamentos que penso que, enquanto Mulheres, podemos alterar para realizarmos o pleno da emancipação feminina.
miss iceberg, concordo plenamente contigo. E, se vc for ver bem, toda a responsabilidade do machismo no mundo cai nas mulheres (afinal somos nós, na maioria das vezes, que educamos os guris). Imaginava que pessoas da nossa geração pensavam como vc e eu, mas com base nas histórias que ouço por aí, a história continua se repetindo, principalmente no mundo latino (e ouço histórias de mulheres de 22 anos que aceitam até apanhar do namorado, mulheres dependentes completamente do parceiro etc etc)… e me pergunto (ou te pergunto)… como fazer a mudança acontecer desde o berço?
beijo,