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Realidade brutal 2 Março 2008

Posted by mariazinha in filhos, mundo cão.
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Sei que no mulheridades tem papo de mulherzinha e de mulherão. Essa é história de mulher pra mulher, que vive nesse mundo e nesse país de desigualdades…

Instigada por Maria Bonita, telegrafo os fatos, apenas editados minimamente a seguir para conseguir alguma inteligibilidade.

Domingo que começa chuvoso. Na hora que o céu abre, decido sair com o Ysio para arejar o menino em programa saudável e barato. Como boa mãe, o levo para dar pão pros patos.

O farol fecha. Uma moça com bebê no colo pede esmola aos motoristas. Outras crianças around.

“Que droga, tenho que sair da teoria e fazer pacotes de 500g de feijão e deixar no carro pra quando pedirem” pensei. Dar dinheiro é fogo. Às vezes, não tem como não dar, mas nem sempre que realmente acho que deveria dar tenho. Feijão é mais legal, tá na mão, é proteína e niguém vai comprar do pedinte um pacotinho de feijão na rua (não é vale transporte), nem aceitar pra comprar pinga ou droga.

Ela se aproxima do carro. Dou as moedas que tinha. Esticando os olhos para o banco do carona, a moça PEDE:

- Me dá um pão desses?

“Que pão, meu Deus?” penso. “O quê? ela está pedindo esse pão petrificado dos patos?” entendendo, mas não compreendendo a situação:

- Não, esse pão tá velho e duro, tô levando para os patos, não posso lhe dar!
- Sim, sim, esse mesmo! Não importa! Pode me dar o pão?
- Mas olhe – insisto – o pão tá duto (toctoc), NÃO DÁ PRA COMER! NÃO POSSO LHE DAR ISSO!

Ela insiste e, pensando nas crianças, entrego o pacote plástico transparente, através do qual se via os pães.

O farol abre. Arranco. Explico ao filho que a moça estava com fome e que vamos visitar os patos, só que sem o pão. Coração revoltado. Doído. Me sinto indigna.

Em menos de cinqüenta metros faço meia volta no retorno possível.

Ao lado da esquina onde está a moça há um mercado. Decido entrar lá, não sem antes executar a manobra de explicar ao filhoque vou sair, o que vou comprar e o porquê. Trabalheira básica, solta o cinto da cadeirinha, leva menino no colo mercado adentro…

Pego muzzarela, presunto, um litro de iogurte, um quilo de feijão preto e peço dez pãezinhos:

- Moça, espera um minutinho que vai sair outra fornada de pão quentinho agora.
- Não posso esperar, tenho pressa! É pra é para uma pessoa que pegou o pão velho, tenho que trocar logo!

Ambos nos damos conta de que o pão quentinho é um luxo que nós podemos nos oferecer. A destinatária do pão que eu comprei tinha mais pressa…

Volto ao farol. Ponho o pisca-pisca pra esquerda e peço pra moça me devolver aquele pão. Estendo as duas sacolas brancas e a moça diz:

- Mas as crianças já comeram…

Vejo uns nacos de pão duro jogados na terra, embaixo da árvore onde as crianças estão abrigadas. Nenê no colo, limpinho, com gorro protegendo do frio.

- Não posso lhe deixar com esse pão feio. Aqui tem um lanche para a senhora e pras crianças. Eu também sou mãe!

Finalmente fizemos a troca de sacolas:

Ela agradece e faz a prece dos pobres, pedindo que Deus nos guarde e retribua. O farol abre novamente. Agradeço. Vou embora.

Desatino a chorar. Ninguém merece pedir esmola com uma criança nos braços, isso me dói sempre! Não estou falando de profissional de esmola nem do alugel de crianças pra isso. A situação real (ou que eu sinto como real) me fere.

Felizmente o filho, de três anos, entende tudo quando a gente explica. Ele nem percebeu que eu estava chorando no carro. Fomos dar pão aos patos. Expliquei que pegamos a sacola de volta porque não se pode dar pão duro pras pessoas, só pros patos…

Chegando em casa, contei pra filha, de dez anos, e pro filho adolescente. O mais velho achou que não podia mesmo deixar a mulher com o pão velho e sugeriu que eu deveria exatamente ter comprado outro pão. Assim é que me gratifico, formando gente desse naipe. Em plena adolescência o cara TEM NOÇÃO!!!! vivas!!!

Comentários»

1. simplesmenteli - 3 Março 2008

Pôxa, que início mais emocionante esse seu, Mariazinha! Lágrimas vieram aos meus olhos! Fiquei imaginando toda a cena. Outro dia lí algo a respeito de como vivemos com luxos e nem percebemos. Exemplo dado no texto que lí: crianças reclamando com a mãe que o sabor do yogurt era repetido e que eles queriam algo novo. Lá fora, um menino de família muito pobre, que nem sabia o que era um yougurt, recebeu o ‘presente’ e tomou muito devagar para fixar bem o gosto já que não sabia qdo teria outra oportunidade como esta…
Fico feliz que seus filhos estejam no caminho certo, da fraternidade, do amor ao próximo, da sensibilidade… o mundo precisa de gente assim, realmente ‘humana’, e somos nós os responsáveis pela criação desse novo mundo!
Bjs!

2. Beth Veiga - 3 Março 2008

Emocionante! Li, chorei junto e também me pergunto, porque tanta desigualdade…
Que bom poder desabafar com os filhos e mostrar que se pode reverter pelo menos um pouquinho aquela situação, mesmo que momentânea. Naquele domingo chuvoso, uma alma caridosa alimentou algumas crianças no farol, mas penso que muitas outras pessoas possam e fazem o mesmo. O lamentável realmente é que está muito longe a proporção dos mais famintos e os mais abastados. Que ótimo pra aquela familia, você ter dado uma passadinha por ali, em uma plena manhã de domingo. Beijos.

3. Chic Chiquita - 4 Março 2008

Olha, é pra se orgulhar mesmo, De você mesma, dos seus filhos e do seu post. Tocante, comovente.
Seja mais do que bem-vinda.

4. Ana - 10 Março 2008

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

“Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.”
José Saramago

(In)felizmente em AMS somos protegidos da pobreza extrema. Não sei se “in”, porque por um lado, tornamo-nos muito mais sensíveis quando, no exterior alguém anda a pedir na rua, por outro, no quotidiano, esquecemo-nos (ou pelo menos eu esqueço-me) que ela existe. Obrigada pelo post!